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Ronaldo Caiado evita detalhes e é criticado em sabatina no JN

  • 27 de ago.
  • 4 min de leitura
Candidato do PSD gerou polêmica ao dizer "não estamos em banca examinadora" e defendeu anistia ampla ao 8 de janeiro em sabatina da Globo.

"Não estamos em uma banca examinadora." A frase, dita pelo ex-governador de Goiás e candidato à Presidência da República Ronaldo Caiado (PSD) ao ser cobrado sobre sua proposta para os aposentados, resumiu o tom de boa parte de sua passagem pelo Jornal Nacional, na noite de terça-feira (25/8). Segundo presidenciável a participar da série de sabatinas que a TV Globo promove com os principais candidatos ao Palácio do Planalto, Caiado enfrentou 40 minutos de perguntas dos jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli, em entrevista exibida ao vivo dos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, com transmissão simultânea pela GloboNews e pelo g1.

O momento que virou assunto nas redes

A resposta evasiva sobre os aposentados não foi um episódio isolado. Ao longo da sabatina, o candidato foi reiteradamente pressionado a detalhar propostas econômicas e, em mais de uma ocasião, preferiu discursos genéricos a respostas objetivas. A postura repercutiu rapidamente nas redes sociais, onde internautas classificaram a entrevista como um dos momentos mais tensos da série de sabatinas iniciada dias antes com Romeu Zema (Novo). Em seguida à exibição, o próprio Caiado gravou um vídeo para suas redes sociais afirmando estar satisfeito com a exposição obtida junto a "mais de 80 milhões de brasileiros" e prometendo "virar o jogo" na disputa presidencial.

Anistia ao 8 de Janeiro reacende debate sobre paralelo com Lula

O tema que gerou o embate mais duro da noite foi a posição de Caiado sobre os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. O candidato confirmou que, se eleito, enviará ao Congresso Nacional um projeto de anistia "ampla, geral e irrestrita", que beneficiaria também o ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje em prisão domiciliar. Para sustentar a proposta, citou a anistia concedida por Juscelino Kubitschek décadas atrás e traçou um paralelo com a anulação das condenações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na Lava Jato. No entanto, checagens publicadas horas depois esclareceram que não houve anistia a Lula: as condenações foram derrubadas em março de 2021 por decisão do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, que reconheceu a incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba para julgar os processos. Ainda durante a entrevista, Renata Vasconcellos observou que parte dos militares beneficiados pela anistia de JK viria a participar do golpe de 1964.

Plano de "Interpol latino-americana" para o combate ao crime

Na área de segurança pública, Caiado descreveu o Brasil como um país "dominado pelas facções criminosas" e chegou a chamá-lo de "a Disneylândia do narcotráfico", atribuindo ao governo federal uma suposta "conivência" com o crime organizado. Afirmou ainda que 60 milhões de brasileiros estariam "escravizados" pelo narcotráfico, dado que não veio acompanhado de fonte. Pesquisa Datafolha, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostra um cenário distinto: 41% da população — cerca de 68,7 milhões de pessoas — afirma viver em bairros com presença ativa de facções.

Como proposta central, o candidato defendeu a criação de uma força policial permanente reunindo o Brasil e os dez países sul-americanos que fazem fronteira com o território nacional, com atuação no combate ao tráfico de drogas, ao contrabando de armas e à lavagem de dinheiro. Ele citou a Europol como referência, afirmando que a nova estrutura teria poder para prender suspeitos. Checagens de fatos, contudo, apontaram que a agência europeia não tem competência executiva para prisões, atuando apenas em cooperação e compartilhamento de dados entre países-membros.

Sem detalhar cortes, defende teto de gastos atrelado ao PIB

Questionado sobre o ajuste fiscal e uma possível reforma da Previdência, Caiado evitou apresentar números concretos. Disse que não mexeria nos pisos de saúde e educação nem no salário mínimo e, ao ser cobrado sobre onde cortaria despesas, mencionou de forma genérica a revisão de subvenções, incentivos fiscais e emendas parlamentares impositivas. Ao mesmo tempo, defendeu uma proposta de emenda constitucional para limitar o crescimento das despesas públicas a 50% da variação do Produto Interno Bruto (PIB), medida que, segundo ele, dispensaria novos aumentos de impostos.

Sobre o endividamento das famílias, afirmou que "80% da população está tomada de dívida". Dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC) indicam que 82% dos consumidores têm algum tipo de dívida a vencer — o que não equivale, necessariamente, à inadimplência. Já o Serasa registrou, em julho deste ano, taxa de inadimplência de 51,04% entre a população adulta do país.

Quem é Ronaldo Caiado

Médico ortopedista de 76 anos, formado pela Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, Caiado acumula mais de três décadas de vida pública. Foi deputado federal por Goiás em dois períodos (1991-1995 e 1999-2015), senador entre 2015 e 2019 e governador do estado por dois mandatos consecutivos, de 2019 a 2026, tendo sido reeleito em 2022 no primeiro turno, com 51,81% dos votos válidos. Fundador da União Democrática Ruralista (UDR) e hoje filiado ao PSD, já passou por legendas como DEM e União Brasil ao longo da carreira.

A sabatina faz parte da série de seis entrevistas que o Jornal Nacional dedica, nesta semana, aos candidatos mais bem posicionados na pesquisa Quaest de 14 de agosto — grupo que também reúne Zema, Renan Santos (Missão), o presidente Lula (PT), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o escritor Augusto Cury (Avante). Caiado também usou parte da entrevista para criticar o governo federal e cobrar maior transparência em investigações que envolvem o INSS e o Banco Master, sem, no entanto, detalhar como conduziria essas apurações à frente do Executivo.

Assim, a passagem de Caiado pelo JN deixou claros os eixos centrais de sua candidatura — segurança pública, anistia ao 8 de janeiro e contenção de gastos , mas também acendeu questionamentos sobre a falta de detalhamento em propostas econômicas, tema que tende a acompanhar o candidato nas próximas semanas de campanha, à medida que o Jornal Nacional segue com as sabatinas dos demais presidenciáveis.

 
 
 

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