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Renan Santos defende bomba atômica e erra dados sobre feminicídio em sabatina no JN

  • 27 de ago.
  • 4 min de leitura
Candidato do Missão moderou o tom no Jornal Nacional nesta quarta (26), mas repetiu erros sobre segurança, feminicídio e clima, aponta a Agência Lupa.

O fundador do Movimento Brasil Livre (MBL) e candidato à Presidência da República pelo partido Missão, Renan Santos, participou nesta quarta-feira (26/8) da sabatina do Jornal Nacional, da TV Globo, realizada no Rio de Janeiro a partir das 20h. Conduzida pela equipe do telejornal, a entrevista integra a rodada de sabatinas com os presidenciáveis mais bem colocados nas pesquisas e teve as declarações do candidato verificadas em tempo real pela Agência Lupa.

Segurança pública e defesa de bomba atômica

Durante a sabatina, Renan Santos reiterou a segurança pública como uma das principais bandeiras de sua candidatura e defendeu a criação de uma bomba atômica pelo Brasil como forma de fortalecer o país no cenário internacional. A proposta, no entanto, esbarra na Constituição Federal, que determina que toda atividade nuclear em território nacional seja destinada exclusivamente a fins pacíficos.

Ao criticar as leis brasileiras de combate ao crime organizado, o candidato afirmou não existirem hoje meios para manter presos por longos períodos os integrantes de facções criminosas. A Agência Lupa classificou a fala como falsa: o país conta com pelo menos duas leis específicas para esse fim. A Lei de Organizações Criminosas (Lei nº 12.850/2013) prevê penas de três a oito anos para quem promove, financia ou integra organização criminosa, com aumentos em caso de uso de arma de fogo. Já a Lei Antifacção (Lei nº 15.358/2026), sancionada em março deste ano, endureceu as punições para facções ultraviolentas e milícias, prevendo reclusão de 20 a 40 anos — pena que pode dobrar para líderes — além de vedar anistia, indulto ou livramento condicional a comandantes e financiadores.

Feminicídio gera divergência sobre responsabilidade federal

Um dos momentos de maior repercussão da sabatina ocorreu quando Renan Santos foi questionado sobre políticas de combate ao feminicídio e à violência infantil. O candidato afirmou que a formulação dessas políticas cabe exclusivamente aos estados. A checagem, entretanto, apontou que a responsabilidade é compartilhada entre União, estados, Distrito Federal e municípios, já que a Constituição estabelece que compete privativamente à União legislar sobre Direito Penal. Como exemplo, a Lupa citou a Lei Maria da Penha, sancionada em 2006, e o Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio, lançado em fevereiro deste ano por representantes dos três poderes.

Por outro lado, uma declaração do candidato foi confirmada pela checagem: ao comentar o perfil das vítimas de homicídio no país, Renan Santos afirmou que a maioria é formada por meninos, geralmente negros. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, o país registrou 40.775 mortes violentas intencionais em 2025, das quais 90,8% das vítimas eram homens e 79,7% eram negras.

El Salvador e comentário sobre Bukele

Questionado sobre o modelo de segurança adotado por Nayib Bukele em El Salvador, Renan Santos disse não conhecer relatos de torturas e desaparecimentos no país e classificou o tema como um "clichê" repetido pela mídia internacional. A Lupa avaliou que a fala carece de contexto: organizações como a Human Rights Watch e a Anistia Internacional acusam o governo salvadorenho de crimes contra a humanidade durante o chamado "regime de exceção", que permite detenções sem ordem judicial. Em quase quatro anos, cerca de 90 mil pessoas foram presas no país, das quais aproximadamente 8 mil acabaram libertadas por falta de provas.

Contextualização: quem é Renan Santos

Renan Santos, de 42 anos, nasceu em São Paulo e é um dos fundadores do Movimento Brasil Livre (MBL), criado em 2014 e conhecido por organizar manifestações que pediam o impeachment da então presidente Dilma Rousseff. Antes de fundar o Missão, filiou-se ao PSDB, legenda pela qual esteve vinculado entre 2010 e 2015. Em outubro de 2023, assumiu a presidência do novo partido, que lançou o chamado "Livro Amarelo", material programático que sistematiza suas propostas de governo, com defesa do liberalismo econômico, redução da intervenção estatal e modernização institucional.

A sabatina no JN ocorreu dias depois de o candidato participar de uma sabatina no TMC 360, na terça-feira (25), e do primeiro debate entre presidenciáveis, promovido pela Band no domingo (23), no qual protagonizou embates com jornalistas e outros candidatos.

Informações complementares

Renan Santos também abordou o tema das mudanças climáticas durante a entrevista, afirmando que já existem políticas específicas de adaptação nas metas de infraestrutura de todos os estados e municípios localizados em regiões de risco. A checagem contestou a afirmação: um levantamento do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), de 2025, identificou que apenas 15% dos municípios brasileiros possuíam plano de adaptação climática, enquanto outro estudo, publicado na revista Sustainable Cities and Society, apontou que 87% dos municípios avaliados não tinham planos nem infraestrutura básica para o tema. Entre os estados, apenas quatro — Minas Gerais, Paraná, Pernambuco e Piauí — contam com Planos de Ação Climática.

Ao comentar as potências nucleares mundiais, o candidato afirmou que as nações mais poderosas do planeta dispõem de armas nucleares. A avaliação da Lupa foi de exagero: entre as dez maiores economias do mundo em 2025, seis possuíam arsenal nuclear — Estados Unidos, China, Reino Unido, Índia, França e Rússia —, enquanto Alemanha, Japão, Itália e Canadá não tinham.

Consequências

A sabatina repercutiu nas redes sociais, com destaque para a defesa da bomba atômica pelo candidato e para as correções feitas pela checagem em tempo real sobre segurança pública e feminicídio. A postura mais contida de Renan Santos, em comparação ao tom adotado no debate da Band, também foi comentada por analistas políticos que acompanharam a rodada de sabatinas do Jornal Nacional.

Próximos passos

A série de sabatinas do Jornal Nacional segue nos próximos dias com os demais candidatos mais bem posicionados nas pesquisas eleitorais. Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) já haviam participado do formato antes de Renan Santos, enquanto o presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está previsto para esta quinta-feira (27). Posteriormente, devem participar Flávio Bolsonaro (PL) e Augusto Cury (Avante), ampliando o debate sobre propostas de governo a poucos meses das eleições de outubro.


 
 
 

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