O poder dos Caiado em Goiás: o que fica fora da propaganda de um “modelo que deu certo”?
Da educação à segurança pública, documentos de fiscalização e reportagens levantam cobranças que a família com longa influência política no estado precisa responder
Por Regina Papini Steiner | Notifica News
Ronaldo Caiado apresenta Goiás como vitrine de sua atuação política. Antes de aceitar essa imagem, é preciso perguntar o que ela deixa de fora. Uma gestão não pode ser medida apenas por slogans de segurança, cerimônias ou aprovação de contas. Também deve responder pela qualidade das escolas, pelo controle da violência policial e pela transparência no uso do dinheiro público.
O sobrenome Caiado tem peso histórico no estado. Historiadores consultados pela Folha de S.Paulo situam a presença da família em Goiás desde o século XVIII e registram sua passagem por sucessivos cargos políticos. Isso não quer dizer que os Caiado tenham governado sem interrupção durante séculos. Quer dizer que dispõem de uma influência duradoura, hoje renovada nas candidaturas de Ronaldo Caiado à Presidência e de Gracinha Caiado ao Senado. Quanto mais poder uma família acumula, maior deve ser o escrutínio sobre suas escolhas.
Uma segurança pública que precisa prestar contas
A segurança é o principal cartão de visitas de Caiado. Mas atenção para aquilo que o discurso de combate ao crime não explica. Com base em levantamento do Instituto Fogo Cruzado, o veículo informou que 81 estruturas de processamento de cocaína foram identificadas em Goiás entre janeiro de 2019 e julho de 2025, o maior número entre os estados mapeados. A presença dessas estruturas não demonstra participação do governo no tráfico. Ela exige, porém, uma resposta pública sobre investigação financeira, fiscalização das rotas e desarticulação das organizações criminosas. Repetir que o estado é seguro não responde a esses dados.
Há outra cobrança incontornável: quem fiscaliza a atuação da polícia? Em artigo publicado pelo Intercept, pesquisadores questionaram a letalidade policial, a resistência do governo ao uso de câmeras corporais e a circulação de viaturas sem placas visíveis. A questão das placas chegou à Justiça: uma sentença de 2024 determinou que veículos dos órgãos estaduais de segurança mantivessem a identificação exigida por lei. O cidadão goiano precisa de proteção contra o crime e de meios para verificar como o Estado exerce sua força.
Escola de tempo integral exige mais que anúncio
Na educação, o Tribunal de Contas do Estado de Goiás apontou, em abril de 2026, atrasos no cumprimento de metas do Plano Estadual de Educação. Recomendou adequações na estrutura física dos Centros de Ensino em Período Integral, melhor acompanhamento dos resultados e fortalecimento dos grêmios estudantis. Se a escola de tempo integral é apresentada como realização, o governo precisa mostrar que seus prédios, seu planejamento e a participação dos alunos acompanham a expansão anunciada.
O estado divulga redução do abandono escolar no ensino médio. Esse resultado merece ser examinado e reconhecido. Também torna mais necessário perguntar quais metas seguem atrasadas, em quais escolas faltam melhorias e quando o plano exigido pelo TCE-GO será cumprido. Uma média estadual favorável não elimina a obrigação de atender cada comunidade escolar.
Contratos milionários e prioridades públicas
Reportagem do 1605News Brasil examinou o programa IA Contra o Crime, associado a um contrato de R$ 304 milhões em Goiás. Segundo o jornal, uma liminar suspendeu o contrato em junho de 2026, mas a decisão foi posteriormente derrubada e o acordo voltou a vigorar. A empresa envolvida afirmou que não houve benefício indevido nem risco de transferência de dados. O episódio pede publicidade dos critérios de contratação, dos custos e dos resultados esperados. Diante de necessidades em saúde e educação, qualquer investimento desse porte deve demonstrar claramente seu benefício à população. A disputa judicial relatada não equivale a uma conclusão de ilegalidade.
O TCE-GO emitiu parecer prévio favorável às contas estaduais de 2025 e constatou o cumprimento dos mínimos constitucionais em saúde e educação. Isso precisa constar de qualquer avaliação honesta. O mesmo tribunal, contudo, expediu 11 determinações ao Executivo, registrou a ausência de parecer conclusivo do Conselho Estadual de Saúde sobre a prestação de contas da área e chamou atenção para o aumento dos gastos com publicidade e propaganda. Cumprir percentuais legais é indispensável; explicar o resultado obtido com cada gasto também é. portal.tce.go.gov.br
O desenvolvimento precisa alcançar quem vive em Goiás
Existem também questionamentos a um memorando firmado por Caiado com representantes dos Estados Unidos sobre o potencial de minerais estratégicos de Goiás. Uma deputada federal acionou a Procuradoria-Geral da República por entender que o tema envolve competência da União. A existência desse questionamento não prova a ilegalidade do memorando. Abre, sim, perguntas sobre transparência, interesse nacional, proteção ambiental e quanto da riqueza mineral pode gerar empregos e desenvolvimento para os próprios goianos.
Existem políticas estaduais de assistência, como o Goiás Social e o Mães de Goiás. Negá-las seria incorreto. O que falta demonstrar, com avaliação pública e independente, é se chegam a todos os que precisam, se reduzem a vulnerabilidade de forma duradoura e como se articulam com serviços de saúde, educação e trabalho. A divulgação de benefícios não deve substituir a medição de seus efeitos na vida das famílias.
É essa a cobrança que deve acompanhar o nome Caiado nas urnas. Onde estão as metas educacionais não cumpridas? Como serão investigadas as estruturas do tráfico identificadas no estado? Qual é o controle sobre a ação policial? O que justificam os contratos milionários? Goiás merece respostas documentadas, fiscalização acessível e políticas públicas cujo resultado possa ser sentido para além da propaganda.




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